domingo, 14 de março de 2010

Elegia a tucano morto (Ao Pedro)

Análise quanto à forma: Drummond escolhe a elegia como forma poética, pois tem um tom fúnebre, triste ( à morte do tucano) e que presta uma homenagem ao tucano ( Gênero Epidítico). O texto também é uma narrativa, o que não impede a realização poética. Tem  duas estrofes.  Seus versos são cortados, com a intenção de mostrar o corte da asa do tucano ao ser capturado e seguem o raciocínio, porém sua continuidade são em novos versos.  São versos em tom profético e imperativo, com verbos no futuro na primeira parte (serás, sofrerás, quedarás), dando a certeza de que os fatos ocorrerão e no presente na segunda parte. dando a ideia de que a profecia foi realizada (te celebro, te registro).

Já quanto ao conteúdo, o poema fala sobre a morte do tucano Picasso, de seu neto Pedro, que o ganhara de sua esposa Adriana. Drummond escreve indignado com o destino de Picasso, que deixara sua vida silvestre abruptamente para uma feira de animais e de lá, mesmo que demore, à morte.
E essa morte se inicia no cortar de suas asas, cortando o seu voo, e se tornando uma caricatura do que já fora: não mais vivera em seu habitat, não mais era um animal silvestre, não mais tinha função, senão entreter crianças.
Ele segue fazendo analogias e antíteses, contrapondo duas realidades: vida e a morte / natureza e cidade.  Faz uma crítica ao de tráfico de animais; essa crítica, em tom amargo quando menciona o projeto da natureza, que em tese deveria ser harmônico e imaculado, fora interrompido por força da ação humana; essa crítica se faz tão intensa que ele considera até mesmo uma inutilidade algo tão colorido e belo nascer pra tal destino.
Esse poema foi composto em uma obra deixada por Drummond em seu escritório, bem organizado, para ser encontrado e publicado após sua morte, como uma obra derradeira.
Segue um outro poema, desse mesmo livro.




O Ninho da Poesia


Prefácio de Humberto Werneck
para o livro

FAREWELL,
de
Carlos Drummond de Andrade

"(...) São fiéis, as coisas
de teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram contigo.
Bem a conheces, tua mesa.
Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.
A mão passa na aspereza.
O verniz que se foi. Não. É a árvore que regressa.
(...)"
(Carlos D. de Andrade, "Indicações" - em A rosa do povo)

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi, Flávia,
tudo bem?

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Bjs,
Nos vemos amanhã!